A graça santificante

Igreja de Santa Maria, Kitchener, Canadá
Gustavo Kralj
A Santíssima Virgem, no primeiro instante de sua existência, foi enriquecida por Deus com uma imensa plenitude de graça, superior à de todos os Anjos e Santos reunidos.

Maria – escreve o Côn. Campana – foi concebida toda brilhante de santidade e de inocência. A saudação que Lhe fez mais tarde o Arcanjo Gabriel: Ave gratiae plena, poder-lhe-ia ter sido dirigida logo no primeira instante em que sua alma, saindo das mãos de Deus, foi unida a seu corpo. Desde então, a Bem-aventurada Virgem sobrepujou a todos os Santos, mesmo aqueles que fizeram nas vias da justiça as mais ousadas e admiráveis ascensões.


Passemos, pois, a considerar essa plenitude de graça na Santíssima Virgem.

A graça santificante

Antes de tudo, ouçamos uma breve explicação sobre a graça santificante:
Esta expressão plenitude de graça, refere-se, segundo o sentido habitual da Escritura, à graça propriamente dita, que se distingue realmente da natureza humana e da angélica, como um dom de Deus inteiramente gratuito, que excede as forças naturais e as exigências de toda natureza criada e mesmo criável. A graça habitual ou santificante nos faz participar da própria natureza divina ou de sua vida íntima, segundo as palavras de São Paulo (II Ped. I, 4): “(Jesus Cristo) nos comunicou mui grandes e preciosas graças, a fim de que por elas nos tornássemos consortes da natureza divina.”

Pela graça nos tornamos filhos adotivos de Deus, seus herdeiros e co-herdeiros do Cristo (Rom. VIII, 17); por ela somos nascidos de Deus. Ela nos torna aptos a receber a vida eterna como uma herança e como a recompensa dos méritos, dos quais ela é o princípio. Ela é mesmo o germe da vida eterna, sêmen gloriae diz a Tradição, enquanto ela nos dispõe, desde já, a ver a Deus como Ele se vê a si mesmo e a amá-lo como Ele se ama.

Esta graça habitual ou santificante é recebida na própria essência de nossa alma como um enxerto sobrenatural que sobreleva sua vitalidade, a deifica. Desta graça derivam para nossas faculdades as virtudes infusas, teologais e morais, e também os sete dons do Espírito Santo; quer dizer, tudo o que constitui nosso organismo sobrenatural. Segue-se daí que pela graça habitual a Santíssima Trindade habita em nós como num templo onde Ela é conhecida e amada.

A graça à qual se refere essas palavras do Anjo: Ave, gratia plena, é, portanto, superior às forças naturais e às exigências de toda natureza criada e criável. Sendo uma participação da natureza divina ou da vida íntima de Deus, ela nos faz entrar, propriamente, no reino de Deus, imensamente acima dos diversos reinos da natureza, que se podem chamar reinos mineral, vegetal, animal, humano e mesmo angélico (…)

O menor grau de graça santificante contido na alma de uma criancinha batizada, vale mais que o bem natural de todo o universo, mais que todas as naturezas criadas, inclusive as angélicas. Existe aí uma participação da vida íntima de Deus que é superior a todos os milagres e outros sinais exteriores da revelação divina, ou da santidade dos servos de Deus (…)

É desta graça, germe da glória, que se trata na palavra dirigida pelo Anjo a Maria: Deus te salve, cheia de graça!

E o Anjo devia notar que, embora tivesse ele a visão beatífica, aquela Santa Virgem possuía um grau de graça santificante e de caridade superior ao dele: o grau que convinha para que Ela se tornasse, nesse mesmo instante, a digna Mãe de Deus. (…)

Três graus distintos de plenitude de graça

Cumpre assinalar, tratando-se da plenitude de graça em geral, que esta existe em três graus muito diferentes, em Cristo, em Maria e nos Santos. São Tomás o explica em diversas passagens.

– Plenitude de graça própria a Jesus Cristo

Existe, primeiramente, a plenitude absoluta de graça que é própria ao Cristo, Salvador da humanidade. Segundo a potência ordinária de Deus, não poderia haver graça mais elevada e mais extensa que a sua. É a fonte eminente e inesgotável de todas as graças que recebeu e receberá a humanidade inteira, depois da queda de Adão (…)

– Plenitude de graça de Maria

Em segundo lugar, existe a plenitude dita de superabundância, que é o privilégio especial de Maria. (…)

– Plenitude de graça dos Santos

E há, por fim, a plenitude de suficiência que é comum a todos os Santos, e que os torna capazes de cumprir os atos meritórios (…) e alcançar a salvação eterna.

Entremos agora a tratar da graça santificante em Maria – em seu início, em seu progresso e em seu termo.

A graça inicial de Nossa Senhora

A Santíssima Virgem foi ornada pela graça santificante desde o primeiro instante de sua conceição. Esta é a sentença completamente certa em teologia.

Se Maria foi preservada de incorrer na culpa original, se foi, desde o primeiro instante de sua existência terrena, amiga de Deus, isto se deu por força da graça santificante, recebida nesse momento de Deus. Dizer-se, portanto, que Maria não esteve jamais, nem por um instante, sujeita à culpa, que é a morte da alma, equivale a reconhecer que sua alma bendita esteve sempre adornada pela graça, e, por isso mesmo, foi sempre objeto das complacências divinas.

– De que modo Maria foi santificada

Admitem comumente os teólogos que Maria foi santificada de modo consciente, desde o primeiro instante de sua vida terrena. É certo que já aí esteve Ela o pleno e perfeito uso da razão. Na verdade, argumenta Suárez, o uso da razão, mesmo antes do nascimento, foi concedido a São João Batista em sua santificação, como consta em São Lucas (I, 42).
Ora, se o uso da razão foi concedido a esse grande Santo, tanto mais terá sido concedido a Maria. Pois acrescenta o doutor exímio, todo privilégio de graça que haja sido concedido a qualquer criatura, não é verossímil haja sido negado a Maria.

Dotada de tal faculdade, Ela, desde o primeiro instante de sua existência, teve logo o conhecimento de Deus e, portanto, com um ato de seu livre arbítrio, se lançou com todo o afeto de seu coração para Ele, num movimento de perfeitíssimo amor. E deste modo se dispôs, com seus atos pessoais, para sua santificação.

Compreenda-se bem, contudo, que esta descrição não quer dizer que Maria tivesse amado primeiro a Deus, para assim, merecer sua santificação. Todos esses seus atos iniciais só podiam alcançar e agradar a Deus, porque já eram movidos e inspirados pela graça divina: Deus A amou primeiro, e o que havia de bom n’Ela e o que Ela fazia de bem, já era efeito desse amor de Deus por Ela.

– Em que grau foi santificada

A graça santificante, em sua intensidade, por infindáveis graus, pode ser mais ou menos perfeita. Pois bem, em que grau de intensidade a recebeu Maria no primeiro instante de sua existência?

Se interrogarmos os Mariólogos, responder-nos-ão em coro que é muito difícil formar uma idéia a respeito da graça concedida à Virgem Santíssima naquele primeiro instante. Não foi, certamente, uma graça comum; deve ter sido, portanto, uma graça especialíssima.

a) Os Teólogos declaram, como o Doutor Angélico, que a graça concedida a Maria em sua primeira santificação, ou sejam a sua graça inicial, superou de longe a medida da graça concedida ao maior dos Santos entre os homens, e ao mais sublime dos Anjos, no primeiro instante da santificação dos mesmos.

O Pe. Terrien assim exprime esta opinião: “Se me interrogardes qual foi em Maria a perfeição da graça, quando Ela saiu radiosa e pura das mãos, digamos antes, do coração de Deus, eis de início uma resposta incontestável: jamais criatura, em sua primeira santificação, recebeu uma graça semelhante. Recordemos o grande princípio: Todo dom de graça concedido pela liberalidade divina a qualquer criatura que seja, Maria o recebeu em medida igual ou superior. Portanto, dado que a perfeição da graça inicial é manifestamente um benefício sobrenatural de Deus, ela foi, em grau supereminente, o privilégio de Maria.

Ademais, a intensidade da graça se revela por seus efeitos. Ora, um dos efeitos desta primeira graça em Maria foi de preservá-La para sempre de toda inclinação ao mal, e de confirmá-La absoluta e plenamente no bem. Portanto, também esse título Ela sobrepuja a primeira graça dos homens e dos Anjos: pois nem em uns, nem em outros, a santificação inicial teve, no mesmo grau, esse duplo efeito.

Ninguém, portanto, teve, em sua primeira santificação, tanta graça quanto teve a Virgem Santíssima.

b) Mas isto é muito pouco para Maria. De sorte que os doutores marianos, tendo à frente Suárez, avançam mais adiante seu confronto e nos dizem que a graça concedida à Virgem Santíssima em sua primeira santificação, ou seja, sua graça inicial, superou em intensidade a graça do mais santo dos Anjos e dos homens quando consumada, ao fim de sua provação.

c) Mas os Mariólogos ainda não estão contentes com isso. Vão mais adiante e nos dizem com Suárez, que a Virgem Santíssima provavelmente recebeu, no primeiro instante de sua existência, mais graça que todos os Anjos e Santos reunidos. A graça inicial de Maria teria, portanto, superado a graça inicial de todos os Anjos e de todos os Santos, somados. Com efeito, a graça como ensina Suárez, corresponde sempre ao amor de Deus por nós e está em proporção com o mesmo. Ora, a Virgem Santíssima, desde o primeiro instante de sua existência terrena, foi mais amada por Deus do que todos os outros, Anjos e homens, tomados coletivamente. Portanto, também a graça que Ela recebeu devia superar a concedida a todos os Anjos e Santos reunidos 9cfr. Suárez, De Incar., disp. 4, sect. 1)

d) Mas, uma vez admitido esse princípio, que é verdadeiríssimo e não pode se posto em dúvida, alguns Mariólogos vão ainda mais longe e concluem, sem mais, que a graça inicial de Maria superou a graça final (ou consumada) de todos os Anjos e de todos os Santos, coletivamente tomados.
E com efeito: qual é a medida que o Senhor usa ao distribuir suas graças? Já o dissemos, mas convém repeti-lo: é a união mais ou menos estreita e o amor mais ou menos intenso que Ele tem para com as criaturas. Ora, que união mais estreita e mais íntima se pode conceber do que a que existiu entre Deus e Maria, sua Mãe? Que amor maior, mais ardente? Não é, realmente, verdade que, desde o primeiro instante de sua conceição, Maria foi amada por Deus como sua futura Mãe e, portanto, mais que todos os outros Santos e todos os Anjos tomados juntos, mesmo considerados no auge de sua perfeição? Isto posto, como negar que Ela, desde o primeiro instante, tenha recebido uma graça mais copiosa e mais intensa do que todos os outros, tomados coletivamente, ao chegarem ao último estágio de sua santificação? Portanto, Maria começa onde os outros acabam. Do ponto aonde os outros chegam na via da perfeição, Ela, com um magnânimo impulso, começa a percorrer sozinha uma estrada quase infinita.

Oh! Sim! Reunamos, ao menos com pensamento, os méritos de todos os Anjos e Santos, em todos os séculos, a obediência dos Patriarcas, a fidelidade dos Profetas, o zelo ardente dos Apóstolos, a invicta constância dos Mártires, a fé viva dos confessores, os ardentes suspiros das viúvas, a inviolada pureza das Virgens, todos os exemplos de virtude com que a Terra foi edificada e o Céu rejubilado; imaginemos, se possível, todas as torrentes de graça e benção que correram através dos séculos, descendo das mãos de Deus e ainda não teremos coisa igual ao oceano de graças que Deus infundiu na Virgem Santíssima no primeiro instante de sua Conceição Imaculada. Desde aquele instante, Ela foi mais pura, diante de Deus, mais santa e mais aceita a seus olhos, mais cara a seu divino coração, do que todas as outras criaturas juntas. Na verdade: “Diligit Dominus portas Sion super omnia tabernacula Jacob” – O Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as tendas de Jacob. Realmente: “Fundamenta ejus in montibus sanctis” (Sl LXXXVI, 1). Seus fundamentos forram postos sobre os montes de Sião.

A graça de Maria, comparada à dos Santos, é como um sol comparado a um raio, como um oceano comparado a um rio, como um rio comparado a uma gota.

A progressividade da graça em Nossa Senhora

Por maior e intensa que tenha sido a graça concedida a Maria no primeiro instante de sua existência terrena, ou seja, em sua primeira santificação, ainda estava bem longe de alcançar o máximo grau de intensidade e de extensão possível. Podia, portanto, como a de todos os justos, crescer cada dia mais em grau e intensidade, até o termo de sua existência terrena.

Com efeito, o Concílio de Trento ensina (cân. 24, sess.VI) que todas as almas, enquanto estiverem no estado de viandantes (isto é, até que tenham chegado à beatitude eterna) podem sempre aumentar com as boas obras o tesouro de sua graça.

À maneira de sóis, irradiam uma luz cada vez mais intensa à medida que avançam em seu curso.

Ora, Maria Santíssima, durante toda a sua vida, esteve no estado de simples viandante, ou seja, não gozava da visão beatífica, ao menos de modo permanente. Pode sempre, portanto, avançar mais para o termo último da viagem que é, justamente, a celeste bem-aventurança.

A este propósito, Nicolas aduz oportuno esclarecimento: “A Imaculada Virgem não cessou de receber novas graças, de crescer em perfeição e santidade, não obstante ser sempre cheia de graça. Como pode ser isto? Só existe uma espécie de plenitude em um vaso material; de sorte que, estando cheio, nada mais pode receber. Porém, uma alma cheia de graça pode receber sempre novas plenitudes, porque recebe ao mesmo tempo novas capacidades. A graça divina engrandece a alma enchendo-a, e a enche engrandecendo-a. E todo cristão faz ou pode fazer, sob tal aspecto, a experiência de tão maravilhosa operação da graça, cuja perfeição se manifesta em Maria.”

Mas, de quantos modos podia verificar-se em Nossa Senhora esse contínuo crescimento da graça?
De três modos, respondem os teólogos, a saber: ex opere operantis (em virtude da atividade do agente); ex opere operato (em virtude do próprio ato realizado e não em virtude da atividade do agente); e pela oração de súplica (via de impetração gratuita).

(CLÁ DIAS, JOÃO. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Artpress. São Paulo, 1997, pp. 457 à 463)

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Referência aos textos do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

O presente blogue apresenta os textos do "Tratado da Verdadeira devoção à Santíssima Virgem" de autoria de São Luís Maria Grignion de Montfort (31/01/1673 - 28/04/1716). Todos os resumos e textos são baseado na tradução do texto original francês.